Space Oddity – David Bowie
- Controle terrestre para Major Tom!
Major Tom deu um pulo do cubículo
onde dormia. Quase bateu a cabeça no teto. Ele não sabia quanto tempo havia
adormecido. Os longos meses dentro da nave e sem ter a referência do nascer e
pôr do sol desregulou o seu relógio biológico há muito tempo.
- Controle terrestre para Major Tom!
– repetiu a voz no auto falante.
Tom flutuou para o painel de
controle, sentou na poltrona principal e colocou os fones de ouvido
- Major Tom na escuta.
- Tome as suas pílulas de
proteína e coloque o seu capacete. Você vai descer agora!
- Agora? – Respondeu assustado
enquanto procurava as pílulas.
- Recebemos da sonda espacial uma
imagem de uma pequena poça de água que contém vida, com fungos, líquens,
micróbios e sabe-se lá mais o que. Chegou a hora!
De dentro do traje ele tirou uma
fotografia. Nela está uma mulher que aparenta ter entre 30 e 35 anos. No verso
está escrito “Por favor, volte”. Ele beijou a foto, colocou-a de volta no traje
e iniciou os preparativos para entrar na órbita marciana e descer no planeta
vermelho.
Tom foi enviado para ser o
primeiro homem a pisar em Marte e trazer consigo provas de vida. Nem ele e nem
os inúmeros cientistas que estavam na Terra e que coordenavam a missão sabiam
quanto tempo iria durar o trabalho. O Major estava na órbita marciana há muito
tempo, apenas esperando o momento exato para pisar no planeta vermelho.
- Começando a contagem regressiva
para descer – disse a voz dentro do capacete de Tom. – Dez, nove, oito, sete...
- Motores ligados.
- Seis, cinco, quatro, três,
dois, um. Verifique a ignição e que o amor de Deus esteja contigo.
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- Aqui é o controle terrestre
para o Major Tom. Você conseguiu, está em Marte! Parabéns, Major! – Além da
voz, ao fundo ouviu-se aplausos e gritos de comemoração. O major não respondeu.
Após o pouso Tom não conseguiu se
mover da poltrona, estava paralisado. A entrada em Marte foi tão impactante que
Tom não sabia se estava vivo ou se a nave se desintegrou e ele estava morto,
com seu corpo flutuando em algum lugar do espaço. Segurava os controles da nave
com tanta força que seus dedos doíam. O enorme barulho dos foguetes da nave finalmente
cessaram e ele tentou recobrar os sentidos aos poucos. Ele ouviu, mas não compreendeu
a informação que lhe chegou ao ouvido.
- Tom? – Perguntou a voz. - Major
Tom, está na escuta?
- S-Sim. – Respondeu. Houve
silêncio por alguns segundos.
- Major, os jornais querem saber
qual camisa você está usando por baixo do traje espacial. – Disse a voz bem
devagar.
- O...o que?
- Sua camisa, Major. Qual delas
você está usando?
Para responder a essa simples
pergunta ele demorou um pouco. Pensar estava difícil. Largou os controles e
olhou por baixo do traje para responder.
- É a amarela, aquela do Monty Python.
- Excelente escolha, Major. Quem
sabe eles fazem um episódio com você.
A ideia de fazer parte de algum
episódio de Monty Python pareceu ridícula para Tom. Idle, Cleese, Palin e os
demais integrantes da série estavam a milhões de quilômetros, quem sabe tomando
chá com a família real.
- Espera, mas eu...estou em Marte.
Como eu vou...?
- É isso que estou tentando
dizer, Major. O senhor está em Marte.
- Isso, eu estou...estou...em Marte!
- Agora está na hora de sair da
cápsula, se você ousar.
Tom recobrou totalmente os
sentidos. Finalmente sentiu a gravidade do planeta sobre o corpo e viu muitos
objetos no chão da nave. Andou. Buscou o material necessário para coletar a
amostra. Com tudo em mãos parou em frente a porta de saída, pronto para abri-la
e se tornar o primeiro homem a caminhar em Marte.
- Aqui é o Major Tom para o
controle terrestre. Estou passando pela porta.
Tom pisou em Marte, mas caminhou
com dificuldade. Caminhar era um desafio por causa da gravidade três vezes menor
que a da Terra. Ele meio que caminhava e dava saltos ao mesmo tempo. Era como
flutuar de uma maneira muito peculiar, como nenhum homem jamais flutuou antes.
Ao olhar para o céu Tom viu, entre
poeira vermelha, o sol muito pequeno e fraco ao fundo. Imediatamente o Major
soube que o dia estava terminando, era o pôr do sol marciano. Guiado pelo radar
ele começou a caminhar em busca da poça de água. Quanto mais caminhava mais
escuro ficava. E enquanto mais escuro mais o céu se modificava. As estrelas
foram aparecendo e Tom se encantou com o a vista. Reconheceu Fobos e Deimos, os dois satélites
naturais de Marte que parecem estrelas de tão pequenos visto a olho nu.
Tudo parecia diferente. As
estrelas, o sol, o céu e, depois de tanto tempo na missão, o próprio Tom não
sabia se era o mesmo.
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O sucesso da missão foi
comemorado por Tom e pela voz quando a nave já estava na rota de volta para o planeta
Terra, guiada pelo piloto automático. A amostra com água e os primitivos seres vivos
estava muito bem guardada. A viagem de volta duraria aproximadamente 250 dias.
Tom passou dias olhando para fora
da nave pelo periscópio. Sempre se sentiu pequeno em relação ao
universo. Sabia que o próprio planeta terra também era assim. Minúsculo,
frágil, um grão de poeira num canto qualquer. Todas as coisas dentro do planeta
era sempre um nada comparado ao universo. Na escala do infinito, toda a história
da humanidade não passava de uma fração de segundo.
Sentado na poltrona principal da
nave o piloto automático informou que o planeta Terra estava visível e fez um registro
em imagem. Tom olhou para a fotografia que a nave tirou e identificou o pequeno
ponto luminoso no centro da imagem como a Terra. Toda a humanidade coube em
poucos pixels.
Alguns dias depois outra foto. A
terra ainda era um ponto na tela de Tom, mas um pouco maior e visivelmente azul.
- Major Tom para o controle
terrestre.
- Sim, Major.
- Eu estou vendo vocês.
- Ótima notícia, Major. Isso significa
que o senhor está próximo. Estamos aguardando o senhor com ansiedade. – Respondeu
a voz.
- O que você está fazendo?
- Trabalhando, senhor.
Monitorando a trajetória da nave, garantindo que a missão seja um sucesso até o
fim. Falta pouco agora.
- Claro, claro. E o que o primeiro
ministro está fazendo?
- O primeiro ministro? Eu não sei,
senhor. Imagino que deve estar em alguma reunião. É isso que os políticos fazem.
Tomam conta da economia, do sistema de saúde, da educação. Enfim, cuidam do país. Por
que a pergunta, Major?
- É que eu estou no meio do nada,
sentado em uma lata que foi construída no pequeno ponto azul que estou vendo na
minha tela. Agora estou muito acima do mundo, literalmente. O planeta terra
continua azul e não há nada que eu possa fazer.
- Sim, senhor. Nós sabemos que o
planeta continua azul, senhor.
- O que vai acontecer quando eu
chegar aí? – Perguntou Tom.
- Bom, imagino que o senhor será
recebido como um dos maiores, se não o maior, homem da história humana, Major. Certamente
o senhor já está na nossa história. Livros já estão sendo escritos. Filmes e
documentários sobre a sua vida estarão nos cinemas em pouco tempo. Suas fotos
estarão nos livros das escolas de todas as crianças do mundo. Provavelmente seu
nome estará estampado nos foguetes do futuro, quando começarmos a colonizar Marte,
senhor.
- Certo
Tom pega a foto da mulher de
dentro do traje e imagina o que ela deve estar fazendo naquele instante. Se fosse
de manhã cedo, ela deveria estar se arrumando para ir trabalhar. Ela sempre toma
um café preto e torradas com muito requeijão. Se fosse de tarde, pode ser que ela
estivesse no trabalho. A não ser que estivesse muito cansada, aí ela deve ter ido
pra casa mais cedo para brincar com o cachorro, uma das poucas coisas que deixavam
ela relaxada.
- O senhor está bem?
- Embora eu tenha percorrido
milhões de quilômetros estou me sentindo muito quieto.
- Anime-se, Major. Em breve o senhor
estará de volta.
Tom guardou a foto novamente no
traje e respondeu:
- Eu não vou voltar. - Alguns
segundos se passaram em silêncio. Tom não sabia se o controle terrestre não havia
entendido o que ele disse ou se estava informando aos superiores.
- Como assim, senhor? O senhor...
a nave... a amostra...
- Eu não vou voltar. – Repetiu Tom.
– A nave sabe para onde deve ir. Preparei tudo nos últimos dias. Ela vai
seguir até a estação espacial internacional. Avise a todos para resgata-la quando
se aproximar. Diga também que não haverá tripulação.
- Mas senhor, e a amostra? E todo
o progresso científico que faremos quando o senhor chegar?
- A amostra está bem segura, não
há risco de perde-la. Todo o meu diário de bordo está registrado. Vocês saberão
tudo o que fiz. Façam o que tem que fazer.
- E a sua esposa, senhor? O que
digo a ela?
- Diga a minha esposa que eu a
amo muito. Ela sabe. Sabe de tudo.
Imediatamente Tom começou a
cortar os fios da central de comunicação da nave. Ele não podia mais falar com
o controle terrestre, apenas escutou as últimas palavras:
- CONTROLE TERRESTRE PARA MAJOR
TOM! SEU CIRCUITO ESTÁ MORTO. HÁ ALGO ERRADO! VOCÊ PODE ME OUVIR, MAJOR TOM? VOCÊ
PODE ME OUVIR, MAJOR TOM? VOCÊ PODE...
Vestindo apenas o traje espacial Tom
está flutuando ao redor da lata. Nunca teve visão mais bonita. A Terra era bem
maior do que a imagem da nave mostrava. Até a lua já estava visível. Luzes de
muitas cores faziam um espetáculo. Ali nada importava mais. Nem ciência, nem o
primeiro ministro, nem filmes idiotas e naves espaciais. Na verdade, nada disso
foi importante aos olhos do universo.
Monty Python, isto sim é uma viagem!!
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