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 - Ueeeeeeennnnnn!!! - AAAAHHHHHHhhhhh!!! - Ueeeeennnnn!!! -Pai, que porra é essa? Por que vc está gritando e imitando choro de neném aqui no meu quarto. São 2h da manhã!!! Tá maluco? - Eu quero um copo de água. - Vai lá na cozinha e pega então. - Não vai dar. UEEEEENNNNN!!!! - Paaaaaaaraa!!!! - Então pega a água pra mim. - Por que você tá fazendo isso? - Sabe o que é filho, é que quando vc tinha três meses de idade eu fiz um tweet. Lá eu falei assim:   “Oi Theo, tudo bem? Aqui é o seu pai. Hoje você tem 3 meses. Quando você tiver 17 anos eu vou chorar de madrugada bem na sua orelha e só vou parar quando você fizer todas as minhas vontades. 3x por noite. Obrigado”. E aqui estou eu cumprindo a minha promessa. UUUEEEEEE... - PAAAAARA DE GRITAAAAR! Puta que pariu, você ficou maluco de vez. Por causa de um tweet de quando eu era bebê você está fazendo isso? - Filho, aquele foi a minha postagem com mais likes na minha vida, fora 64 coraçõezinhos. Imagina qua...

Bohemian Rhapsody - Queen

A dor no meu corpo era tanta que eu não sabia dizer se estava vivo ou morto, se ainda estava no mundo real ou tendo um pesadelo horrível. Tudo doía e eu respirava com muita dificuldade, como se estivesse soterrado. Por mais que eu tentasse, não conseguia puxar o ar. Na minha cabeça aquela sensação durou horas. Apesar de não mexer um músculo a dor demorou a cessar. E quando passou foi de uma hora para outra, sem aviso. Relaxei. Meu corpo se estendeu e pude finalmente sentir que o chão era quente e macio. Acho que adormeci por algum tempo, não sei direito. Era tudo muito confuso. Quando acordei não conseguia saber se estava de olhos abertos ou fechados, tamanha era a escuridão do lugar onde eu estava. Comecei a me rastejar em busca de uma parede e quem sabe de uma porta. Não encontrei nada. Me pus de quatro e engatinhando segui a procura, que continuou em vão. No momento que me levantei uma luz forte e branca se acendeu e vinha diretamente de cima de mim. Parecia um grande holofote...

Entre o amor e o ódio, o Nacional (Conto Especial)

Aviso: Este conto não conta a história de nenhuma música. Foi feito especialmente para um concurso e aproveito para publica-lo aqui. ** A primeira vez que fui ao Estádio Nacional do Chile foi em julho 1967. Meu pai me levou para ver o amistoso entre o nosso Colo-Colo e Peñarol. Com nove anos, lembro-me apenas de algumas cenas daquela partida. Ainda do lado de fora, fiquei impressionado com o tamanho do estádio que parecia não ter fim. Quando entramos me deparei com o imenso gramado verde, muito maior e mais bonito do que eu imaginava quando ouvia os jogos pelo rádio. Lembro, também, dos gritos e aplausos na entrada dos nossos jogadores recebidos com uma chuva de papel picado. Aquela partida marcou a estreia de Carlos Caszely, que tinha apenas 17 anos e que rapidamente se tornaria um ídolo do nosso time. O estádio era também o local que meu pai usava para encontrar os amigos e discutir, entre outros assuntos, política. Foi a primeira vez que lembro de ter ouvido dois nomes que nunca...

Fallin - Zhiend

Kazumi chegou até o pé da torre de aço no bairro de Shiba-Koen. A Torre de Tóquio é uma réplica da famosa Torre Eiffel, no entanto é menor e embaixo funciona uma galeria com várias lojas. Os olhos do velho Kazumi estavam vidrados na torre que estava muito iluminada no meio da noite. Imaginou como seria subir até o topo e em como se sentiria ao cair. Há algumas noites antes Kazumi estava em casa bebendo um saquê roubado e viu no telejornal da madrugada a história de Ito, um velho de 93 anos que morava sozinho e morreu de causas naturais. A história foi parar na TV pois o corpo de Ito só foi encontrado três anos depois, já praticamente decomposto. Ninguém sentiu a falta de Ito. Tão sozinho no mundo quanto Ito, Kazumi era perseguido pelo que estava à frente. Tudo era reflexo do passado, mas isso já não o amedrontava. No Japão era cada vez mais comum o Kodokushi, termo que faz menção a morte solitária e cujos corpos demoram a ser encontrados. Era muito mais comum com idosos. ...

Lá vem o Brasil, descendo a ladeira - Moraes Moreira

Apressada ela sai de casa e fecha a porta com cuidado para não acordar os pais e o irmão mais novo. Ainda não amanheceu, mas ela já está na rua. O ônibus vai passar em sete minutos e ela precisa estar no ponto pra não se atrasar para o trabalho. O dia começa muito cedo para ela, que desce a ladeira se equilibrando entre o salto alto e o paralelepípedo irregular da rua onde mora. Desde pequena Sandra é conhecida pelo sobrenome, Brasil. No ônibus Brasil encontra Camila, que também está todos os dias no mesmo transporte indo para o trabalho. A duas são amigas de infância. - Uau, onde você vai assim toda arrumada? O camelô do centro virou shopping center? – pergunta Brasil em tom de brincadeira. - Não, vou aproveitar meu horário de almoço pra entregar alguns currículos lá no centro – responde a amiga desanimada. Camila concluiu o ensino superior há mais de dois anos. Foi contratada na última empresa que estagiou, mas apenas por 3 meses. A viagem até o terminal do ce...

Space Oddity – David Bowie

- Controle terrestre para Major Tom! Major Tom deu um pulo do cubículo onde dormia. Quase bateu a cabeça no teto. Ele não sabia quanto tempo havia adormecido. Os longos meses dentro da nave e sem ter a referência do nascer e pôr do sol desregulou o seu relógio biológico há muito tempo.   - Controle terrestre para Major Tom! – repetiu a voz no auto falante. Tom flutuou para o painel de controle, sentou na poltrona principal e colocou os fones de ouvido - Major Tom na escuta. - Tome as suas pílulas de proteína e coloque o seu capacete. Você vai descer agora! - Agora? – Respondeu assustado enquanto procurava as pílulas. - Recebemos da sonda espacial uma imagem de uma pequena poça de água que contém vida, com fungos, líquens, micróbios e sabe-se lá mais o que. Chegou a hora! De dentro do traje ele tirou uma fotografia. Nela está uma mulher que aparenta ter entre 30 e 35 anos. No verso está escrito “Por favor, volte”. Ele beijou a foto, colocou-a de...

O mundo é um moinho – Cartola

O sol se põe no alto do morro. Na sala de um pequeno casebre na parte superior da favela o pai está sentado na velha poltrona verde musgo no canto da sala, do lado oposto à porta de entrada. A luz entra a força pela janela trincada, alguns raios param na cortina e outros chegam até o peito do homem negro de idade avançada que conserva arrumados os cabelos brancos, encaracolados e curtos. Os óculos escuros escondem o olhar preocupado e triste enquanto o suor escorre pela testa. Ao lado da poltrona há um sofá de dois lugares igualmente velho. Na ponta mais próxima da poltrona, uma senhora negra de cabelos brancos escondidos pelo lenço vermelho, está sentada. É a mãe que já chora baixinho. Surge na sala a filha. Nas costas uma grande mochila com roupas. No ventre um neném de 30 semanas. - Ainda é cedo, amor. – diz o pai com serenidade - Eu sei, pai. Mas já me decidi. Antônio vai passar aqui em casa pra me buscar. Já deve estar chegando. - Mal começastes a conhece...