Lá vem o Brasil, descendo a ladeira - Moraes Moreira
Apressada ela sai de casa e fecha
a porta com cuidado para não acordar os pais e o irmão mais novo. Ainda não
amanheceu, mas ela já está na rua. O ônibus vai passar em sete minutos e ela
precisa estar no ponto pra não se atrasar para o trabalho.
O dia começa muito cedo para ela, que desce a ladeira se equilibrando entre o salto alto e o paralelepípedo irregular da rua onde mora. Desde pequena Sandra é conhecida pelo sobrenome, Brasil.
O dia começa muito cedo para ela, que desce a ladeira se equilibrando entre o salto alto e o paralelepípedo irregular da rua onde mora. Desde pequena Sandra é conhecida pelo sobrenome, Brasil.
No ônibus Brasil encontra Camila,
que também está todos os dias no mesmo transporte indo para o trabalho. A duas
são amigas de infância.
- Uau, onde você vai assim toda
arrumada? O camelô do centro virou shopping center? – pergunta Brasil em tom de
brincadeira.
- Não, vou aproveitar meu horário
de almoço pra entregar alguns currículos lá no centro – responde a amiga desanimada.
Camila concluiu o ensino superior
há mais de dois anos. Foi contratada na última empresa que estagiou, mas apenas
por 3 meses.
A viagem até o terminal do centro
dura mais de uma hora. Camila fica por ali mesmo e segue seu destino a pé. Brasil
ainda tem que pegar um metrô pra chegar no primeiro compromisso do dia. Ela
embarca no trem lotado e busca um espaço para poder ler os textos da faculdade
no trajeto.
Brasil chega no consultório 15
minutos antes do horário de abrir. Como sempre, ela é a primeira a chegar. Olha
na agenda e confere os horários. O primeiro paciente do dr. Augusto Barros, odontopediatra,
só chegará em uma hora. Ela calcula que terá pelo menos meia hora pra continuar
estudando antes do doutor chegar. Senta-se na sua mesa na recepção e, entre um
telefonema e outro, abre os livros.
Quinze minutos depois chega o
doutor. Brasil fecha imediatamente os livros tentando esconde-los.
- Bom dia, doutor.
- Bom dia – Respondeu o doutor de
costas para Brasil enquanto fechava a porta da clínica.
- O primeiro paciente do senhor
será em 45 minutos.
- Uhum – resmungou atravessando o
corredor.
- E a mãe do João Gabriel, do
horário das onze e meia, ligou e remarcou a consulta para amanhã. Então o
senhor terá um tempo maior de almoço hoje.
- Ok.
- E um novo plano de saúde mandou
uma proposta por e-mail que...
- Eu vejo da minha sala – Respondeu
rispidamente antes que Brasil terminasse de responder. – E já falei que não quero
você estudando aqui. Te pago para trabalhar, não para estudar - O doutor fechou
a porta do escritório interno com força antes mesmo que Brasil pudesse se
desculpar.
No almoço ela usava o micro-ondas
da minúscula copa dentro da clínica para esquentar a comida que a mãe preparou
no dia anterior. Eram quinze minutos bem aproveitados. Vinte se o doutor não
estivesse na clínica.
Quando o relógio aponta seis
horas da tarde ela se apressa para não perder o ônibus que a levará para a
universidade. Ela sai apressada. Ao lado do ponto de ônibus come um
churrasquinho de rua. O ônibus demora mais do que o normal e atrasa Brasil para
a aula. Chega na sala na metade do segundo horário e se senta ao lado da melhor
amiga, Júlia.
- O que eu perdi? – pergunta baixinho
- Imunofarmacologia, começou faz
mais ou menos uma hora. Te passo os detalhes no intervalo.
Da universidade para casa o caminho
é longo. Outra vez ônibus e metrô. Está exausta e já não consegue mais ler no
transporte. Ela chega em casa, janta rapidamente com a família e vai dormir.
Foi apenas a segunda feira. Ela
vai repetir isso por mais quatro vezes na semana. E mais inúmeras vezes até se
formar. E sabe-se lá o que virá depois. Equilibrando tudo, sendo filha, amiga
da Júlia e da Camila, secretária do dr. Augusto e estudante de enfermagem. Brasil
é sobrecarregada, mas faz isso porque acredita no futuro melhor que quer dar
para si.
Mas tem uma vez no ano que ela
extravasa toda a tensão acumulada. Onde, por uma noite, ela não é secretária e
nem estudante. Ela é a primeira porta-bandeira e representa todo o bairro onde
mora no maior carnaval do mundo.
É fevereiro. Brasil desce a ladeira
novamente. Mas agora com uma fantasia de gala, pomposa e com muitas penas. O salto
agora é de uma sandália que, com longas tiras, se enrola na perna morena e
cumprida. No rosto, muito brilho e um sorriso largo. Esta é a imagem que todos
tem quando se fala em Brasil.
Todos ali reconhecem a força da
mulher por baixo da fantasia, pois eles também são Brasil e todos se libertam no
dia do desfile. Junto com a Brasil, o Brasil também desce a ladeira. O
motorista de ônibus vira percussionista. A vendedora vira passista. O sapateiro
declama versos. A manicure está na ala das baianas. O barbeiro é mestre de
bateria. O dono da oficina é o diretor de harmonia. Todo mundo só vai se
lembrar das respectivas profissões após a quarta-feira de cinzas.
Por que este odontopediatra é tão arrogante? Adorei a história, poderia ser uma inspiração!!!
ResponderExcluirGrande, Marquinhos. De fato, quem desce do morro não morre no asfalto!!!
ResponderExcluir