O mundo é um moinho – Cartola


O sol se põe no alto do morro. Na sala de um pequeno casebre na parte superior da favela o pai está sentado na velha poltrona verde musgo no canto da sala, do lado oposto à porta de entrada.

A luz entra a força pela janela trincada, alguns raios param na cortina e outros chegam até o peito do homem negro de idade avançada que conserva arrumados os cabelos brancos, encaracolados e curtos. Os óculos escuros escondem o olhar preocupado e triste enquanto o suor escorre pela testa.

Ao lado da poltrona há um sofá de dois lugares igualmente velho. Na ponta mais próxima da poltrona, uma senhora negra de cabelos brancos escondidos pelo lenço vermelho, está sentada. É a mãe que já chora baixinho.

Surge na sala a filha. Nas costas uma grande mochila com roupas. No ventre um neném de 30 semanas.

- Ainda é cedo, amor. – diz o pai com serenidade

- Eu sei, pai. Mas já me decidi. Antônio vai passar aqui em casa pra me buscar. Já deve estar chegando.

- Mal começastes a conhecer a vida e já anuncias a hora de partida.

- Não sou mais nenhuma criança. Tenho 17 anos e já trabalho desde os 12.

- Sem saber mesmo o rumo que irás tomar.

- Pai, não posso ser uma cantora trancada em casa, sem descer o morro. Toni já tem contatos, vai ser um excelente pai para o seu neto e um excelente empresário para a minha carreira.

- Preste atenção, querida.

- Mãe, explica pra ele. Você confia em mim! – suplica a filha

A mãe não reage. As lágrimas agora escorrem pelo rosto enquanto olha para as próprias mãos enrugadas pelas décadas lavando roupa para fora.

- Embora eu saiba que está resolvida, em cada esquina cai um pouco a tua vida. – continua o pai sem alterar a voz

- Não, pai. Aqui é onde tudo se levanta, onde minha vida vai começar de verdade. Vou com tudo que tenho criar meu filho junto com o Toni e cantar, mostrar meu talento para o Brasil.

- Em pouco tempo não serás mais o que és.

Ela se aproxima do pai e se ajoelha aos pés do velho. Ela quer chorar mas o orgulho a impede.

- Eu sempre vou ser a sua caçula, pai! Vou voltar aqui sempre. Eu amo a nossa família e isso não vai mudar nunca. Além disso...

- Ouça-me bem, amor

- ...vocês não estarão sozinhos, o Agenor vai continuar morando aqui e cuidando de tudo, pra que não falte nada para vocês. Ele sempre foi o mais responsável por ser o mais velho.

- Preste atenção. O mundo é um moinho. Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos. Vai reduzir as ilusões à pó.

A filha se levanta com tanta rapidez quanto a barriga lhe permite. Franze a testa como se não acreditasse no que acabara de ouvir, ainda tentando entender o que o pai acabara de dizer.

- Pai, para! Não quero mais ouvir seu pessimismo. Agradeço os conselhos e todos esses anos que cuidaram de mim. Fui uma boa filha e só queria a bênção de vocês para começar a minha vida. Não quero morar aqui a vida toda e só lavar roupa sem por o nariz pra fora do morro.

O carro que a filha esperava estaciona na frente da casa e Antônio buzina.

- Preste atenção, querida! De cada amor tu herdarás só o cinismo

- Então por isso que vocês não querem que eu saia de casa, né? Vocês nunca gostaram do Antônio! Pois ele vai ser meu marido, pai de mais um dos seus netos e é ele quem vai cuidar da minha carreira.

- Quando notares, estás à beira do abismo

- Eu não pensei que era isso que vocês queriam para mim.  

A filha vira-lhe às cotas e sai apressadamente. Entra no carro e bate a porta com muita força

- Abismo que cavaste com os teus pés – sussurra o pai.

A mãe, que viu e ouviu tudo calada, senta-se na mesa da cozinha e pega o caderno de receitas. Vira-o do avesso e ainda chorando escreve cada palavra que o marido dissera.

Comentários

  1. Marcus, tens o dom da pena, meu caro, e, embora o mundo seja, de fato, um moinho, ele precisa conhecer teu talento. Vai em frente...

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  2. Parabéns. Amei e me emocionei. Quero ver mais. Tá amo.

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  3. Lindo meu primo!!! Muitos contos por vir!!!

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