Fallin - Zhiend


Kazumi chegou até o pé da torre de aço no bairro de Shiba-Koen. A Torre de Tóquio é uma réplica da famosa Torre Eiffel, no entanto é menor e embaixo funciona uma galeria com várias lojas. Os olhos do velho Kazumi estavam vidrados na torre que estava muito iluminada no meio da noite. Imaginou como seria subir até o topo e em como se sentiria ao cair.

Há algumas noites antes Kazumi estava em casa bebendo um saquê roubado e viu no telejornal da madrugada a história de Ito, um velho de 93 anos que morava sozinho e morreu de causas naturais. A história foi parar na TV pois o corpo de Ito só foi encontrado três anos depois, já praticamente decomposto. Ninguém sentiu a falta de Ito.

Tão sozinho no mundo quanto Ito, Kazumi era perseguido pelo que estava à frente. Tudo era reflexo do passado, mas isso já não o amedrontava. No Japão era cada vez mais comum o Kodokushi, termo que faz menção a morte solitária e cujos corpos demoram a ser encontrados. Era muito mais comum com idosos.

Era começo de dezembro e os lojistas estavam montando a decoração de natal e ao pé da torre algumas barras de aço foram os primeiros degraus para Kazumi subir na torre. Muito devagar ele foi subindo cada vez mais. Apesar de idoso tinha uma mobilidade boa, conservada pela ioga que realizava quase diariamente em casa. Entre uma pausa e outra para descansar e traçar qual o melhor caminho para chegar o mais alto possível, Kazumi chegou a mais ou menos 70 metros do chão.

De lá ele viu os carros que nunca pôde ter, pessoas muito bem vestidas que nunca viria a conhecer, os prédios com apartamentos caros e chiques do outro lado da rua que ele jamais pensou em morar, viu uma escola particular que os filhos, caso ele tivesse, jamais teriam a oportunidade de estudar e um prédio com salas e escritórios que jamais teria a oportunidade de entrar. Por mais que ele quisesse ter isso tudo durante a vida, nada disso ele teve.

As pernas de Kazumi tremeram. O medo toma conta do coração. Não era o medo da morte. Era o medo do Kodokushi. Soprava um vento muito gelado, típico do outono japonês. Mas ele não sentiu frio. Fechou os olhos e quando percebeu sentiu que estava voando. Uma fração de segundo depois percebeu que estava caindo.

Kazumi começou a cair há muito tempo. Começou quando, na juventude, sentia inveja dos poucos conhecidos da escola que se deram bem na vida, com bons empregos. E como ele tentou se juntar à eles a vida toda. Tentou estudar em boas universidades, mas oriundo de família pobre não conseguiu pagar pelos estudos. Tentou o comércio e quando parecia sair do chão, foi engolido pelos grandes e quebrou. Quando se viu sem nada arranjou trabalho pelo salário mínimo, mas no tempo livre continuou a buscar vida melhor. Não se casou, não teve filhos e se distanciou dos irmãos.

Tudo o que ele viu antes de cair do alto da torre era a vida que ele queria ter tido. Todos as pessoas vivendo suas boas vidas naquele bairro chique era quem ele queria ter sido. Depois de velho se conformou com a vida feia que nunca quis, mas nunca parou de ansiar pela vida que nunca teve.

Depois de ver a história de Ito as coisas mudaram de perspectiva. Kazumi se sentia mais triste por não ter alguém que se importe com ele do que por não ter o dinheiro, o apartamento e o carro que não possuia. Algo o tinha levado até o alto daquela torre e ele sabia que a falta dos bens materiais não teria esse poder sobre ele. Era o kudokuchi. Era a única maneira de garantir que ele não seria o próximo Ito.

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