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Mostrando postagens de abril, 2020

Fallin - Zhiend

Kazumi chegou até o pé da torre de aço no bairro de Shiba-Koen. A Torre de Tóquio é uma réplica da famosa Torre Eiffel, no entanto é menor e embaixo funciona uma galeria com várias lojas. Os olhos do velho Kazumi estavam vidrados na torre que estava muito iluminada no meio da noite. Imaginou como seria subir até o topo e em como se sentiria ao cair. Há algumas noites antes Kazumi estava em casa bebendo um saquê roubado e viu no telejornal da madrugada a história de Ito, um velho de 93 anos que morava sozinho e morreu de causas naturais. A história foi parar na TV pois o corpo de Ito só foi encontrado três anos depois, já praticamente decomposto. Ninguém sentiu a falta de Ito. Tão sozinho no mundo quanto Ito, Kazumi era perseguido pelo que estava à frente. Tudo era reflexo do passado, mas isso já não o amedrontava. No Japão era cada vez mais comum o Kodokushi, termo que faz menção a morte solitária e cujos corpos demoram a ser encontrados. Era muito mais comum com idosos. ...

Lá vem o Brasil, descendo a ladeira - Moraes Moreira

Apressada ela sai de casa e fecha a porta com cuidado para não acordar os pais e o irmão mais novo. Ainda não amanheceu, mas ela já está na rua. O ônibus vai passar em sete minutos e ela precisa estar no ponto pra não se atrasar para o trabalho. O dia começa muito cedo para ela, que desce a ladeira se equilibrando entre o salto alto e o paralelepípedo irregular da rua onde mora. Desde pequena Sandra é conhecida pelo sobrenome, Brasil. No ônibus Brasil encontra Camila, que também está todos os dias no mesmo transporte indo para o trabalho. A duas são amigas de infância. - Uau, onde você vai assim toda arrumada? O camelô do centro virou shopping center? – pergunta Brasil em tom de brincadeira. - Não, vou aproveitar meu horário de almoço pra entregar alguns currículos lá no centro – responde a amiga desanimada. Camila concluiu o ensino superior há mais de dois anos. Foi contratada na última empresa que estagiou, mas apenas por 3 meses. A viagem até o terminal do ce...

Space Oddity – David Bowie

- Controle terrestre para Major Tom! Major Tom deu um pulo do cubículo onde dormia. Quase bateu a cabeça no teto. Ele não sabia quanto tempo havia adormecido. Os longos meses dentro da nave e sem ter a referência do nascer e pôr do sol desregulou o seu relógio biológico há muito tempo.   - Controle terrestre para Major Tom! – repetiu a voz no auto falante. Tom flutuou para o painel de controle, sentou na poltrona principal e colocou os fones de ouvido - Major Tom na escuta. - Tome as suas pílulas de proteína e coloque o seu capacete. Você vai descer agora! - Agora? – Respondeu assustado enquanto procurava as pílulas. - Recebemos da sonda espacial uma imagem de uma pequena poça de água que contém vida, com fungos, líquens, micróbios e sabe-se lá mais o que. Chegou a hora! De dentro do traje ele tirou uma fotografia. Nela está uma mulher que aparenta ter entre 30 e 35 anos. No verso está escrito “Por favor, volte”. Ele beijou a foto, colocou-a de...

O mundo é um moinho – Cartola

O sol se põe no alto do morro. Na sala de um pequeno casebre na parte superior da favela o pai está sentado na velha poltrona verde musgo no canto da sala, do lado oposto à porta de entrada. A luz entra a força pela janela trincada, alguns raios param na cortina e outros chegam até o peito do homem negro de idade avançada que conserva arrumados os cabelos brancos, encaracolados e curtos. Os óculos escuros escondem o olhar preocupado e triste enquanto o suor escorre pela testa. Ao lado da poltrona há um sofá de dois lugares igualmente velho. Na ponta mais próxima da poltrona, uma senhora negra de cabelos brancos escondidos pelo lenço vermelho, está sentada. É a mãe que já chora baixinho. Surge na sala a filha. Nas costas uma grande mochila com roupas. No ventre um neném de 30 semanas. - Ainda é cedo, amor. – diz o pai com serenidade - Eu sei, pai. Mas já me decidi. Antônio vai passar aqui em casa pra me buscar. Já deve estar chegando. - Mal começastes a conhece...