Bohemian Rhapsody - Queen
A dor no meu corpo era tanta que
eu não sabia dizer se estava vivo ou morto, se ainda estava no mundo real ou
tendo um pesadelo horrível. Tudo doía e eu respirava com muita dificuldade, como
se estivesse soterrado. Por mais que eu tentasse, não conseguia puxar o ar.
Na minha cabeça aquela sensação
durou horas. Apesar de não mexer um músculo a dor demorou a cessar. E quando
passou foi de uma hora para outra, sem aviso. Relaxei. Meu corpo se estendeu e
pude finalmente sentir que o chão era quente e macio.
Acho que adormeci por algum
tempo, não sei direito. Era tudo muito confuso. Quando acordei não conseguia
saber se estava de olhos abertos ou fechados, tamanha era a escuridão do lugar
onde eu estava. Comecei a me rastejar em busca de uma parede e quem
sabe de uma porta. Não encontrei nada. Me pus de quatro e engatinhando segui a
procura, que continuou em vão.
No momento que me levantei uma
luz forte e branca se acendeu e vinha diretamente de cima de mim. Parecia um
grande holofote que estava a muitos metros de altura. Por uns instantes fiquei
cego e quase caí novamente.
- Bem-vindo ao seu julgamento. –
Disse uma voz extremamente poderosa.
No começo eu fiquei com medo. Não
sabia quem era o meu inquisidor e nem sabia como me defender do que estavam
prestes a me acusar. Tentei fazer uma síntese dos meus pecados e de tudo mais
que eu poderia ser suspeito. Várias coisas surgiram na minha cabeça, mas o
principal erro da minha vida foi o que me levou a estar no julgamento. Tinha
certeza que esse erro deveria ser o foco da minha defesa por ser o mais grave.
Era ele que definiria o meu futuro eterno.
- Você sabe onde está?
- Acho que sim.
- Você sabe porque e como veio
parar aqui?
- Sim - Respondi sem dizer
“senhor” ou “senhora” no final pois eu não soube distinguir se a voz era
masculina ou feminina.
- Parece-me que você assimilou
bem a passagem.
- Eu percebi quando estava
morrendo.
- Pois bem. Já vi milhares de
casos como o seu. Vários pequenos pecados que não rendem uma condenação. Seria
fácil dar-te alguns anos de penitência e depois conceder-lhe um bom lugar na
vida eterna. No entanto há algo que não posso deixar passar com tanta
facilidade. Você sabe o que fez, não sabe?
- Sim, eu sei.
- E o que tem a dizer em sua
defesa?
Eu não sabia o que falar. Se
aquela voz era de Deus, ele já sabe de tudo: minha história, minhas motivações
para fazer o que fiz e até mesmo o que eu estava pensando naquele exato
momento. Como eu vou me defender contra um inquisidor que sabe de tudo? Ele
sabia o que ia falar antes mesmo das palavras saírem da minha boca. Nessas
circunstâncias resolvi agir como fui em vida, nunca me preocupei com o futuro e
jamais medi consequências para alcançar o que queria.
- Eu sou apenas um garoto
qualquer. Andei com pessoas más e me desvirtuei da educação que minha mãe me
deu. A minha vida foi uma só e tentei aproveitar ao máximo mesmo que isso
significasse passar por cima dos outros. Eu não precisei e ainda não preciso de
compaixão. Você sabe de tudo. O que fiz e porque fiz. Apenas me dê a sentença
logo, por favor.
- Então queres dizer-me que não
estás preocupado com a tua salvação?
- Você sabe com o que estou
preocupado ou não.
Deixei que ela(e) visse na minha
mente o que importava para mim. Fechei os olhos e lembrei da última conversa
que tive com a minha mãe. Deixaram-me na porta da casa dela com um grande
buraco no abdômen. Tentei conter o sangramento com as mãos, mas não foi o
suficiente.
Minha mãe me arrastou pra dentro
e antes que ela tomasse qualquer atitude, puxei-a para o tapete, agora muito
ensanguentado, onde eu estava deitado. No colo dela confessei.
- Mãe, acabei de matar um homem. Coloquei
uma arma na cabeça dele e puxei o gatilho. Agora ele está morto.
Foi a primeira coisa que eu disse
para ela depois dos dois anos que eu havia sumido de casa. Vi o horror na cara
dela. Reparei que ela estava chorando, não sei se por conta do choque em me ver
naquele estado por eu ter me tornado um assassino. Antes de qualquer pergunta,
continuei.
- Desculpe, mãe. Não queria te
fazer chorar.
- Tudo bem, meu filho. – E me deu
um beijo na testa.
- Mãe, não chama a ambulância. Se
eu for para o hospital vão me pegar. Me deixa ficar aqui. Se eu morrer, se eu
não acordar amanhã, siga em frente como se nada tivesse acontecido, como se eu
nem tivesse voltado. Eu fiz as escolhas erradas, não se lamente por mim.
- As suas escolhas foram as
minhas também, meu filho. A maternidade é assim. Se pudesse eu lutaria mais
pelas suas e pelas minhas escolhas também.
Mas era tarde demais. A minha
hora havia chegado. Senti arrepios na espinha e aquela dor que carreguei comigo
após a morte iniciou nesse instante. A última coisa que me lembro antes de
morrer é do rosto da minha mãe chorando bem próximo ao meu. Sussurrei:
- Mãe, eu não quero morrer. Mas
às vezes queria nunca ter nascido. - Desde de a minha morte eu não sabia quanto
tempo havia se passado no mundo dos vivos e não soube mais nada sobre ela.
Voltei minha atenção para a voz
com quem eu conversava. Outra luz se acendeu na minha frente, parecia vir de um
holofote gigante vindo do infinito. Uma sombra apareceu no meio da luz. A voz
de trovão me perguntou o que eu estava vendo.
- A silhueta de um pequeno homem.
Ele está se mexendo, parece que está dançando – Respondi sem confiança.
- É o Scaramouche. – Antes
que eu perguntasse o que era um Scaramouche a voz já começara a explicação. - É
um palhaço que mesmo fazendo tudo de errado consegue escapar das consequências
mundanas. Invenção dos homens, é claro. Você poderá ir com ele se você for
salvo.
- E se eu não for salvo?
Ao invés da voz ouvi raios e
trovões em volume muito mais alto do que eu jamais imaginei que fosse possível.
Parecia que tudo iria me atingir ao mesmo tempo. Me joguei no chão encolhido e
torci pra não morrer, esquecendo que já estava morto.
Quando abri os olhos mais dois
holofotes estavam acesos, um à minha direita e um à esquerda. Levantei devagar
tentando entender o novo cenário. O que estava à direita eram pessoas vestidas
com fantasias e máscaras características do carnaval de Veneza. À esquerda um
ser, alto e magro exibia um sorriso tenebroso e deixava a mostrava os dentes
pontudos. Sangue pingava das mangas compridas. Atrás dele pequenos seres nus com
a pele muito machucada e com nomes gravados a ferro no peito.
Fiquei extremamente incomodado
pelas novas figuras que se apresentaram. Não senti confiança em nenhum deles.
Evitei olhar em específico para as criaturinhas ensanguentadas. Cercado, a
única alternativa que eu tinha era às minhas costas, onde não havia ninguém.
Tentei fugir, mas era como correr em uma esteira. Eu estava com medo, suando e se
meu coração ainda batesse certamente estaria acelerado.
- Você cometeu pecados, sendo o
maior deles tirar uma vida que eu coloquei no mundo. – trovejou a voz do alto.
É verdade, ele havia colocado
aquela vida no mundo, assim como colocou a minha. Mas me dei conta de que eu
não era o único culpado por aquela morte, fui destinado a fazer o que fiz.
Tomei coragem e respondi:
- Tudo que fiz estava nos seus
planos. Não estava escrito nas suas linhas tortas que eu tiraria a vida daquele
homem?
- Te dei alternativas. Escrevi
para você várias linhas, mas só você poderia escolher qual delas seguir. Crio
todos e com meu amor infinito dou a cada um o livre arbítrio.
- Você sabia das minhas
fraquezas, sabia o que eu faria quando me defrontasse com cada decisão. Se o
homem que matei era tão importante no mundo dos vivos VOCÊ poderia ter salvado
ele!
- Quem julga aqui sou eu!
- Você é cúmplice! - gritei - Deveria
estar aqui ao meu lado se defendendo. Sabe de todas as coisas ruins que vai
acontecer e nada faz para impedir! É assim que você ama seus filhos?
- Basta! Você não sabe de nada
dos planos divinos. Acha que é o primeiro a vir aqui e me fazer tais acusações?
Você chegou aqui por conta própria.
- Você está mais para promotor do
que para juiz. Pensei que ele é que iria me acusar. – Retruquei olhando para o
ser de dentes pontiagudos.
- E você também não fez o papel
que era seu. Está sendo o meu acusador e nada disse para se defender.
- E quer que eu diga o que? Que
eu era só um menino qualquer que ninguém amava? Que me arrependi de ter matado
aquele homem?
- Não, pois esse é o momento da
verdade. Primeiro quero que assuma as suas
responsabilidades. Depois reconheça que causou mais mal do que bem enquanto
esteve vivo.
Isso provavelmente era verdade.
Não apenas matei aquele homem, mas nos últimos anos também roubei, enganei muitas
pessoas e abandonei minha família. E não
consegui pensar qual foi a última vez que ajudei ou perdoei alguém.
- Sim, reconheço. – disse baixando
a cabeça.
- Você é meu filho e eu te amo
assim como amo todos que criei. Vejo que está sendo sincero. É o primeiro passo
para ir com o Scaramouche.
- Então é isso? Me deixarão ir?
- Ainda não. Você vai com o
Scaramouche, mas não agora. – Disse a voz. A luz que iluminava o palhaço se
apagou. Olhei para o lado e a criatura de dentes pontudos estava caminhando em
minha direção seguido das pequenas criaturas. – Você precisa colocar a sua alma
em equilíbrio primeiro.
- NÃO! – Gritei em desespero – ME
DEIXEM IR COM O SCARAMOUCHE! ME DEIXEM!
- Nós não deixaremos você ir – Disseram
as criaturinhas horrendas. E avançaram para cima de mim. As mãos em carne viva
dos pequenos monstros me seguraram e eu não conseguia me soltar.
Escutei um coro perfeitamente bem
ensaiado dizer. “Ele é apenas um menino de uma família pobre. Poupe-o dessa
monstruosidade”. Para a minha surpresa eram as vozes das pessoas à direita
fantasiadas. Estavam implorando em meu nome, pois eu já não conseguia mais. “Deixe-o
ir!”, suplicava o coro enquanto eu me debatia. “NÃO”, respondiam os pequenos
horrendos.
Uma coisa fez com que eu parasse
de resistir. Reparei que no peito de um dos pequenos seres horríveis estava marcado
o meu nome. Desde de quando esse diabinho estava reservado pra mim? E me dei
conta de que foi tudo um circo, eu já cheguei condenado. Retomei o último
fôlego que me restava e gritei novamente em direção a luz de cima:
- Você mentiu pra mim! Pensa que
me ama, mas só me apedreja, cospe em mim e me deixa ir para o inferno! A morte
não pode ser tão injusta, não pode fazer isso comigo!
Sem forças, me entreguei e deixem
que os monstrinhos e o ser de dente pontiagudo me levassem. O coro que
suplicava em meu nome sumiu. A luz do alto se apagou. Nada havia mais nada que
eu pudesse fazer e não havia mais nada para eu me importar.
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