Entre o amor e o ódio, o Nacional (Conto Especial)

Aviso: Este conto não conta a história de nenhuma música. Foi feito especialmente para um concurso e aproveito para publica-lo aqui.

**

A primeira vez que fui ao Estádio Nacional do Chile foi em julho 1967. Meu pai me levou para ver o amistoso entre o nosso Colo-Colo e Peñarol. Com nove anos, lembro-me apenas de algumas cenas daquela partida. Ainda do lado de fora, fiquei impressionado com o tamanho do estádio que parecia não ter fim. Quando entramos me deparei com o imenso gramado verde, muito maior e mais bonito do que eu imaginava quando ouvia os jogos pelo rádio. Lembro, também, dos gritos e aplausos na entrada dos nossos jogadores recebidos com uma chuva de papel picado.

Aquela partida marcou a estreia de Carlos Caszely, que tinha apenas 17 anos e que rapidamente se tornaria um ídolo do nosso time. O estádio era também o local que meu pai usava para encontrar os amigos e discutir, entre outros assuntos, política. Foi a primeira vez que lembro de ter ouvido dois nomes que nunca mais sairiam da minha cabeça e da minha casa: Carlos Caszely e Salvador Allende.

Além de torcedor fanático do Colo-Colo, meu pai era membro do Partido Socialista do Chile. Allende já era um político mais do que conhecido em todo o país. Na verdade, esse nome já era dito na minha casa muitos anos antes de eu nascer, só que eu nunca havia prestado atenção.

Depois daquele jogo passei a acompanha-lo em muitas partidas. Vivemos intensamente o Colo-Colo em 1967 e 1968. Não ganhamos o campeonato chileno nesses dois anos, mas me deu as melhores recordações dele. A partir de 1969 a nossa frequência no estádio começou a diminuir. Era um momento muito importante na política chilena e meu pai se envolvia cada vez mais nos assuntos do partido.

Muitas reuniões de membros do partido eram na nossa casa, mas, naturalmente, nunca participei, pois era apenas uma criança. As discussões eram acaloradas e era impossível não ouvir. Eu não entendia o significado de “estatização”, “greve”, “sindicato” e “socialismo”, termos ditos a toda hora, mas, de longe, a palavra que mais se repetia, na verdade era um nome, “Allende”.

Na minha cabeça altamente dualista eu imaginava o Partido Socialista do Chile, comandados pelo treinador Salvador Allende, contra os conservadores. Mas eu não fazia ideia de quem estava ganhando aquela partida.

Parecia que o time do Partido Socialista jogava um campeonato que não tinha fim. Foram anos de reuniões, protestos, comícios, greves e alianças para, em 1970, Allende se tornar presidente. Não foi fácil para o partido, nem para a minha família. Vi meu pai ferido após protestos e ameaçado de morte por anônimos.

Tudo na minha cabeça era um paralelo entre a política e o futebol. Allende havia perdido as últimas três eleições que disputara antes de novembro de 1970, assim como o Colo-Colo não ganhou os últimos seis campeonatos chilenos, sendo que quatro deles foram conquistados pelo nosso maior rival, a Universidad do Chile.

Nossa redenção, assim como a de Allende, foi no campeonato em 1970 quando meu pai, eu e outros 71 mil espectadores vimos o Colo-Colo vencer o Unión Española por dois a um e ser campeão novamente. Tudo parecia dar certo naquele ano, Colo-Colo e Allende no topo do Chile.

Com uma onda extremamente otimista, voltamos a ser espectadores frequentes nas arquibancadas do Estádio Nacional. Em 1971 não fomos campeões, mas meu pai não se importou muito já que o lado político dele estava em êxtase. Allende havia nacionalizado bancos, as minas de cobre e as grandes empresas chilenas, acelerou a reforma agrária e aumentou os salários dos trabalhadores.

1972 foi marcado pelo crescimento econômico chileno. As ações de Allende deram resultados positivos, mas desagradava a muitos outros setores da sociedade e, como eu viria a saber anos depois, os Estados Unidos. Foi, também, o ano que nosso time foi campeão chileno pela 11° vez. Dia 21 de dezembro foi a última vez que meu pai viu o Colo-Colo ser campeão.

Em 1973 tudo mudou na política e o clima era de muita tensão. O Chile estava afundado em uma grave crise econômica e Allende estava ameaçado no cargo de presidente. Faltava comida nos mercados e a inflação torrou o dinheiro do povo chileno.

Mesmo com o nosso Colo-Colo vivendo grande fase na Copa Libertadores, quase não íamos mais ao estádio. Na campanha que terminamos como vice-campeão do continente fomos apenas a dois jogos, uma na primeira fase e outro na segunda fase no fenomenal empate contra o Botafogo por três a três.

Em junho de 1973 foi a última vez que fomos juntos ao Nacional assistir o Colo-Colo. Era a primeira rodada do campeonato chileno e ganhamos do Palestino. Cinco dias depois houve a primeira tentativa de golpe contra Allende, mas a operação El Tanquetazo falhou.

Lembro que meu pai não queria ir a esta partida. Insisti muito para que ele fosse comigo. Com toda a situação atípica ele pouco prestou atenção ao jogo. Comemorou discretamente os gols do Colo-Colo. Olhava por cima dos ombros a cada cinco minutos como se esperasse que alguém o atacasse a qualquer momento. Ele estava certo em se preocupar.

As semanas que se seguiram foram de terror para o povo chileno. Atentados terroristas dos dois lados políticos deixaram Santiago apavorada. O congresso rejeitou a solicitação de estado de sítio enviada pelo presidente Allende. Vi pouco meu pai nesse tempo. Ele esteve nas ruas durante os protestos que a esquerda promoveu, incluindo a passeata que pediu a Allende para fechar o congresso e tomar todo o poder para si. O presidente se negou a atentar contra a democracia. Em três meses, Allende estava fora do poder e Pinochet assumiu o comando.

Semanas antes do golpe a minha família já estava desfeita. Eu e minha mãe fomos morar com meus avós. Meu pai se escondeu, mas se recusou a sair de Santiago. Então, setembro chegou, e com ele o golpe militar. No dia seguinte ao golpe foi atribuído ao Estádio Nacional outra função além de ser palco de alegria ao povo chileno. Nos primeiros meses da ditadura o estádio foi usado como campo de prisioneiros, era agora um lugar de tortura, terror e morte.

A última vez que vi meu pai foi em setembro daquele ano, eu tinha 15 anos. Estava em frente ao portão da casa dos meus avós ao lado de minha mãe. Ele, com um sobretudo preto, chapéu e pela primeira vez na vida com barba e bigode, se despediu e entrou num carro preto com mais três homens. Saíram e eu nunca soube pra onde.

Em menos de uma semana, dois homens do partido foram até a casa dos meus avós procurando pela minha mãe - sequer entraram. Da porta de entrada anunciaram que meu pai foi morto pelo exército. Falaram que havia um delator infiltrado que entregou dezenas de membros do partido ao exército chileno. A última notícia que tinham do meu pai é que ele foi levado como prisioneiro para o Estádio Nacional e sabiam que ele não estava na lista dos presos transferidos para o Campo de Prisioneiros de Chabuco, pra onde iam a maioria dos presos políticos após a “triagem” feita no estádio. E com certeza ele não teria sido liberado.

O luto tomou conta da minha família. Não houve velório e nem enterro porque até hoje não sabemos o paradeiro do corpo. Não foi fácil seguir em frente. Até morrer minha mãe ficou obcecada por qualquer barulho estranho na porta de entrada, sempre imaginando que meu pai pudesse entrar a qualquer momento. E sempre que ele não vinha eu percebia que ela sofria novamente.

Pouco mais de um mês após a morte dele houve o histórico boicote da seleção soviética, que se recusou a jogar a partida decisiva das eliminatórias para a copa de 1974 no estádio onde há pouco tempo pessoas haviam sido torturadas e mortas. Sem adversário, o Chile se classificou para a Copa do Mundo. Isso seria um grande feito para o nosso povo e eu estaria eufórico vendo nossa seleção no mundial. Mas naquelas circunstâncias eu não assisti um jogo sequer da Copa.

Após a morte dele passei anos sem acompanhar o Colo-Colo, nem mesmo pelo rádio ou pela televisão. Sem meu pai não tinha mais graça. Só retornei a um estádio de futebol seis anos depois, em 1979, quando fui conhecer o Estádio Monumental David Arellano, nova casa do Colo-Colo, inaugurada quatro anos antes. Foi só em 1979 que o Cacique conquistou um título nacional depois daquele de 1972 que vi no Nacional.

Aos poucos me tornei um frequentador assíduo do Monumental. Claro que sempre quis meu pai presente neste estádio comigo, mas no Monumental tudo parecia novo, não tinha toda a carga emocional que o Nacional trazia entranhado nele. No novo estádio comemorei muitos outros títulos chilenos e a glória máxima que um clube sul-americano pode alcançar, o título da Libertadores da América em 1991. Ao longo dos anos ensinei meu filho a ir ao Monumental assim como eu havia aprendido a ir ao Nacional com meu pai.

Ao longo da vida passei em frente ao Estádio Nacional poucas vezes, sempre que possível eu desviava o trajeto. Passei anos tentando imaginar o que teria acontecido ao meu pai ali dentro. Se, e como, teria sido torturado, se havia delatado os planos do partido ou se teria aguentado a dor, ou se teria sido executado com um tiro à queima roupa imediatamente após ser reconhecido.

Pensei que nunca mais pisaria no Nacional. Havia colocado isso na minha cabeça assim que soube que meu pai provavelmente havia morrido lá dentro. Até 2015 eu havia cumprido a essa promessa feita pra mim mesmo, mas aí veio a Copa América.

A seleção chilena jogou todos os jogos no Nacional. Foram cinco jogos até a semifinal, quando ganhamos do Peru por dois a um. Dois dias antes da final me deixei convencer pelo meu neto e meu filho e fui assistir a nossa seleção contra a Argentina.

Durante todo o trajeto para o estádio eu não disse uma palavra. Entramos no estádio e as grandes reformas que o Nacional havia sofrido desde que estive nele em 1973 amenizaram o impacto emocional que me atingiu, mesmo assim sofri. Cada passo que dava em direção às nossas cadeiras o meu peito ficava mais e mais pesado. Tive certeza que meu coração ia sair pela garganta quando vi o pedaço da arquibancada atrás de um dos gols que permanece ainda inalterada desde 1973 em homenagens aos presos, torturados e mortos pela ditadura.

Aos poucos me acostumei e entrei na festa da grande final. Consegui finalmente soltar os primeiros gritos de apoio a nossa seleção quando os jogadores entraram em campo e o Nacional pulsou pela Roja. Na hora do hino nacional cantei aos berros em meio a 45 mil chilenos: “Dulce Patria, recibe los votos/ Con que Chile en tus aras juro/ Que o la tumba serás de los libres/ O el asilo contra la opresión”. Após anos de mágoa o Nacional era meu amigo novamente. Aquilo não foi culpa dele.

Foi uma noite histórica para a seleção chilena que levantou um troféu de campeão pela primeira vez. Depois de muitos anos eu senti uma forte dor no peito de saudade do meu pai. Queria ele ali comigo. Mas foi quando abracei meu filho e meu neto que chorei de verdade, acho que como nunca na vida. Quando me perguntaram o motivo do choro respondi que era pelo título, é claro.

Comentários

Postar um comentário